NAS ou OneDrive: qual é mais seguro para guardar seus arquivos?
Publicado por: Wendell Nunes
Sistemas, internet e segurança · 22 de outubro de 2026
Quem decide onde guardar fotos, documentos e arquivos da empresa costuma cair numa disputa de ideias: "o meu NAS é meu, ninguém mexe" contra "a nuvem da Microsoft tem estrutura que eu nunca vou ter". As duas frases têm um pedaço de verdade, e é por isso que a pergunta "qual é mais seguro?" não tem uma resposta única. A segurança depende do que você quer evitar: um disco que queima, um arquivo apagado sem querer, um ransomware, uma senha roubada, um incêndio ou uma assinatura que vence.
Neste artigo, portanto, vamos tratar o assunto como uma análise de riscos. Para cada ameaça, você verá como o NAS e o OneDrive se comportam, com números e fontes. Também vamos calcular o custo por terabyte realmente usado, porque custo e segurança se misturam na hora da decisão. Os fatos são separados do que é cálculo meu e do que é opinião, que vem identificada. As informações valem até 22 de outubro de 2026.
Primeiro, o que cada um é
NAS (Network Attached Storage) é um pequeno computador dedicado a guardar arquivos, com uma ou mais baias para discos e um sistema próprio. Para ter uma referência concreta, usei o Synology DS225+, um modelo de duas baias que aparece na KaBuM por R$ 4.084,05 no PIX (ou 10 x R$ 429,90). Segundo a página, ele usa um processador Intel Celeron J4125 quad-core, 2 GB de memória DDR4 sem correção de erros (ECC), uma porta de 2,5 GbE e outra de 1 GbE, suporta RAID 0, RAID 1 e JBOD, e consome 16,98 W em operação e 6,08 W com os discos hibernando. As baias não são hot swap. Os discos não vêm incluídos.
OneDrive é a plataforma de armazenamento da Microsoft. Na página da Microsoft Brasil que consultei, o plano Microsoft 365 Personal custa R$ 509 por ano (ou R$ 51 por mês) e inclui 1 TB, e o Family custa R$ 599 por ano, para de 1 a 6 pessoas. A página lista 2 TB compartilhados no Family, valor que difere do que a Microsoft divulgava antes, então confirme na hora da compra. Ambos listam proteção contra ransomware do OneDrive.
Nenhum dos dois é um backup sozinho
Este é o ponto mais importante do artigo. Um backup é uma cópia que sobrevive ao problema que atingiu a original. Dois exemplos mostram por que NAS e OneDrive, sozinhos, não cumprem esse papel:
- RAID não é backup. O RAID 1 espelha dois discos: se um morre, o outro segura. Mas se você apagar um arquivo, ou um ransomware criptografá-lo, o espelho reproduz o estrago nos dois discos na mesma hora.
- Sincronizar não é fazer backup. Uma pasta sincronizada com a nuvem funciona do mesmo jeito: a alteração no computador vai para o servidor. O OneDrive reduz esse risco com lixeira, histórico de versões e restauração, mas isso tem prazo, como veremos.
A própria QNAP, em um alerta aos usuários, recomenda a regra 3-2-1: três cópias dos dados, em dois tipos de mídia, com uma cópia fora do local. Vamos usar essa regra como régua no final.
Ameaça 1: falha de disco
No NAS, o disco é o ponto fraco mais previsível. O relatório de 2025 da Backblaze, que monitora cerca de 344 mil discos em data center, registrou uma taxa anualizada de falha (AFR) de 1,36%, abaixo dos 1,55% de 2024, e uma taxa acumulada de 1,30%. Com esse número dá para fazer uma conta (minha, e com uma ressalva importante):
Cenário Probabilidade Um disco falhar em 1 ano 1,36% Um disco falhar em 5 anos 6,6% Pelo menos um de dois discos falhar em 1 ano 2,7% Pelo menos um de dois discos falhar em 5 anos 12,8% Os dois falharem no mesmo ano (independentes) 0,018% O segundo falhar até 14 dias depois do primeiro 0,05%
A leitura é a seguinte: num NAS com RAID 1 de dois discos, a chance de perder um disco em cinco anos é de cerca de 1 em 8, mas a de perder os dois e, com isso, os dados, é muito pequena, desde que você troque o disco defeituoso logo. A ressalva é que esses números supõem falhas independentes e vêm de um data center. Em casa, os dois discos costumam ser do mesmo lote, ficam no mesmo gabinete, sofrem a mesma queda de energia e o mesmo calor, o que aumenta a chance de falharem juntos.
No OneDrive, o problema do disco deixa de ser seu. A Microsoft informa que os data centers são distribuídos geograficamente e tolerantes a falhas, e que os dados são espelhados em pelo menos duas regiões diferentes do Azure, separadas por no mínimo algumas centenas de milhas. Isso é uma proteção que um NAS doméstico dificilmente replica. O ponto a favor da nuvem é claro nesta ameaça.
Ameaça 2: exclusão acidental e erro humano
- OneDrive: a lixeira de contas pessoais guarda os arquivos apagados por 30 dias (93 dias em contas de trabalho ou escola), e as versões anteriores dos arquivos podem ser restauradas. Depois que o item sai da lixeira, não há como recuperá-lo.
- NAS: a proteção depende de você configurar. Os sistemas costumam oferecer lixeira de rede e snapshots (fotografias periódicas do estado dos arquivos), mas nada disso funciona sem ser ativado e testado.
Aqui há empate em segurança, com uma diferença prática: no OneDrive o recurso já vem pronto, e no NAS ele é uma escolha de configuração.
Ameaça 3: ransomware
NAS: o risco real é a exposição
Os ataques contra NAS são frequentes e bem documentados. Em janeiro de 2022, a QNAP alertou sobre duas famílias de ransomware: o Qlocker, que explora uma falha de autorização, e o eCh0raix, que usa tentativas de senha em sequência (força bruta) contra o login do equipamento. O alerta descreve a força bruta como a forma mais comum de ataque a NAS. Em 2020, a CISA e o centro de segurança do Reino Unido tinham alertado sobre o QSnatch, um malware que infectou milhares de NAS da QNAP e podia impedir a instalação de atualizações de firmware.
O padrão se repete: os mais vulneráveis são os equipamentos expostos à internet sem proteção. As recomendações da QNAP são desativar o redirecionamento de portas (port forwarding) no roteador para as portas de administração, desligar o UPnP, usar o acesso remoto pela plataforma da própria fabricante em vez de abrir portas e seguir a regra 3-2-1. Esse é o conselho central: um NAS bem configurado, sem exposição direta, atualizado e com senha forte, reduz muito o risco. Um NAS exposto com senha fraca é uma das coisas menos seguras que se pode ter.
OneDrive: detecção e restauração, com prazo
Para assinantes do Microsoft 365, o OneDrive avisa quando detecta um ataque de ransomware e permite restaurar o OneDrive inteiro para um ponto anterior em até 30 dias. A página da Microsoft explica o procedimento: confirmar os arquivos infectados, limpar todos os dispositivos com antivírus e só então restaurar, pois os arquivos podem ser criptografados de novo se a restauração ocorrer antes da limpeza. Quem não é assinante tem a primeira notificação e recuperação gratuitas.
Isso resolve um problema que o NAS doméstico costuma não ter (um histórico de 30 dias gerenciado por outra empresa), mas deixa um limite: se o ataque passar despercebido por mais de 30 dias, a janela se fecha.
Ameaça 4: conta invadida e senha roubada
Esta é a ameaça em que a nuvem é mais frágil. Quem rouba a sua conta Microsoft acessa os arquivos de qualquer lugar do mundo, sem precisar chegar à sua rede. As defesas existem e funcionam: verificação em duas etapas, passkeys e o Cofre Pessoal (Personal Vault). O Cofre exige uma segunda verificação de identidade (impressão digital, rosto, PIN ou código) a cada acesso, trava sozinho após inatividade (20 minutos na web e 3 minutos, por padrão, no aplicativo móvel) e bloqueia o compartilhamento enquanto o arquivo está lá dentro. Sem assinatura, ele aceita só 3 arquivos. A Microsoft também afirma bloquear tentativas suspeitas de login e avisar por e-mail sobre atividade incomum. Nosso artigo sobre senhas e verificação em duas etapas explica por que essa camada reduz tanto o risco.
No NAS, a conta invadida também é possível, mas o alvo precisa ser alcançado: se o equipamento só responde dentro da rede local, o atacante precisa antes entrar na sua rede.
Ameaça 5: roubo, incêndio, alagamento e queda de energia
Aqui a vantagem é da nuvem. Um NAS fica em um lugar só: o mesmo incêndio, roubo ou raio que atinge o computador atinge o NAS, e o RAID não ajuda. Um nobreak reduz o risco de dano elétrico, mas não resolve o risco físico. O OneDrive mantém os dados fora do seu endereço, em pelo menos duas regiões.
Ameaça 6: privacidade e acesso do provedor
Segundo a Microsoft, cada arquivo no OneDrive é criptografado em repouso com uma chave AES-256 exclusiva, e essas chaves são protegidas por chaves mestras guardadas no Azure Key Vault. Os dados em trânsito usam TLS. A página também descreve uma política de "acesso permanente zero" a engenheiros, em que o acesso a dados de clientes é concedido apenas por tempo limitado, após aprovação, e monitorado. O que a página não diz é que a criptografia seja de ponta a ponta (end-to-end) para arquivos comuns. Ou seja, a Microsoft controla as chaves dos seus arquivos, o que é aceitável para a maioria dos usuários e um problema para quem lida com dados muito sensíveis, que podem criptografar os arquivos antes de enviar.
No NAS, os dados ficam sob seu controle físico. Em compensação, a segurança passa a ser responsabilidade sua: criptografia do volume, atualizações e acessos.
Ameaça 7: continuidade, assinatura e inatividade
Dois detalhes da Microsoft merecem atenção:
- Fim da assinatura: quando o plano do Microsoft 365 expira, o armazenamento volta ao limite gratuito de 5 GB. Se você estiver acima dele, os arquivos ficam somente para leitura. Após 3 meses nessa situação, a conta é congelada, e após 6 meses a Microsoft "pode excluir" o OneDrive e todos os arquivos, sem possibilidade de recuperação.
- Inatividade: contas pessoais que não são usadas por dois anos, ou que ficam acima do limite por mais de 12 meses, recebem aviso de exclusão. Entrar na conta desfaz o processo.
No NAS, o equipamento é seu enquanto funcionar, mas ele também envelhece. O DS225+ é vendido com garantia do fornecedor de 13 meses na página consultada. Discos e fonte podem falhar, e uma versão antiga do sistema sem atualizações vira risco, como mostrou o caso do QSnatch.
Quadro comparativo
Ameaça NAS (RAID 1) OneDrive (assinante) Falha de disco protege contra 1 disco, se você trocar rápido resolvida pela Microsoft (espelhamento em 2 regiões) Exclusão acidental depende de lixeira e snapshots que você configura lixeira de 30 dias e versões anteriores Ransomware seguro se não exposto e atualizado; histórico depende dos snapshots detecção e restauração por até 30 dias Conta invadida alvo precisa chegar à sua rede risco maior; exige 2FA, passkey e Cofre Pessoal Roubo, incêndio, raio sem proteção (um local só) dados fora do local Privacidade você controla as chaves e a segurança Microsoft controla as chaves; AES-256 por arquivo Continuidade depende do equipamento e das atualizações depende da assinatura ativa e do uso da conta
Custo: quanto custa cada terabyte realmente usado
Segurança e custo andam juntos, e a conta abaixo é minha, com uma hipótese declarada. Não consegui confirmar o preço atual de HDs para NAS no Brasil (a página do Seagate IronWolf 4 TB que achei estava esgotada e sem preço), então assumi R$ 900 por disco de 4 TB, apenas como exemplo. Troque pelo valor real da sua pesquisa. Também supus R$ 1,00 por kWh, e o consumo de 16,98 W do DS225+ ligado o ano inteiro dá cerca de 149 kWh por ano, ou cerca de R$ 149.
Item Valor NAS DS225+ (PIX) R$ 4.084,05 2 discos de 4 TB (hipótese de R$ 900 cada) R$ 1.800 Investimento inicial R$ 5.884,05 Energia por ano (hipótese de R$ 1,00/kWh) R$ 149 Custo total em 5 anos R$ 6.628 Custo por ano R$ 1.326 Capacidade útil em RAID 1 4 TB Custo por TB útil por ano R$ 331
Para o OneDrive Personal, a conta é R$ 509 por TB por ano (R$ 2.545 em 5 anos para 1 TB). O resultado muda conforme o quanto você usa:
Uso real NAS por ano OneDrive Personal por ano Ponto de equilíbrio 1 TB R$ 1.326 R$ 509 16 anos (mais que a vida dos discos) 2 TB R$ 1.326 R$ 1.018 cerca de 6,8 anos 3 TB R$ 1.326 R$ 1.527 cerca de 4,3 anos 4 TB R$ 1.326 R$ 2.036 cerca de 3,1 anos
O ponto de equilíbrio considera o investimento inicial dividido pela diferença anual entre o custo da nuvem e o custo de energia do NAS. A comparação para 2 TB ou mais é simplificada, porque o Personal vende 1 TB por pessoa e a Microsoft tem outras formas de ampliar o espaço que eu não pesquisei. A conclusão é geral: com pouco volume de dados, o OneDrive é muito mais barato; a partir de 3 a 4 TB, o NAS compensa em poucos anos. E há um custo que a tabela não inclui: a cópia fora do local. Um disco externo adicional de 4 TB, na mesma hipótese de R$ 900, leva o total de 5 anos a cerca de R$ 7.528.
Então, qual é mais seguro?
O que os fatos mostram:
- Contra falha de hardware e desastre físico, a nuvem é mais forte, porque os dados já ficam em pelo menos duas regiões.
- Contra ransomware, o NAS bem configurado e fora da internet pode ser tão seguro quanto a nuvem, mas o NAS mal configurado é um dos alvos mais atacados. O OneDrive entrega detecção e restauração prontas, com prazo de 30 dias.
- Contra invasão de conta, a nuvem exige mais cuidado, e o NAS local é naturalmente menos alcançável.
- Contra perda por falta de pagamento ou inatividade, o NAS não tem esse risco, e a assinatura tem.
Minha opinião (é um julgamento, não um dado medido):
- Para a maioria das pessoas e pequenos negócios, com até 1 ou 2 TB, o OneDrive com verificação em duas etapas e senha forte é a opção mais segura e mais barata, desde que você mantenha a assinatura ativa e faça uma cópia local de vez em quando.
- Para quem tem muito volume (acima de 3 a 4 TB), precisa de controle total dos dados ou compartilha arquivos na rede interna, o NAS faz sentido, mas só com disciplina: sem acesso direto da internet, firmware atualizado, 2FA no login, snapshots ativos e uma cópia externa.
- A resposta mais segura é combinar os dois. O NAS guarda os arquivos de uso diário, e uma cópia periódica vai para a nuvem ou para um disco guardado em outro lugar, o que cumpre a regra 3-2-1.
Fontes consultadas
- Microsoft, "How OneDrive safeguards your data in the cloud": https://support.microsoft.com/onedrive/how-onedrive-safeguards-your-data-in-the-cloud
- Microsoft, "How to detect ransomware and recover files using OneDrive": https://support.microsoft.com/onedrive/how-to-detect-ransomware-and-recover-files-using-onedrive
- Microsoft, "Protect your OneDrive files in Personal Vault": https://support.microsoft.com/office/protect-your-onedrive-files-in-personal-vault-6540ef37-e9bf-4121-a773-56f98dce78c4
- Microsoft, "Restore deleted files or folders in OneDrive": https://support.microsoft.com/office/restore-deleted-files-or-folders-in-onedrive-949ada80-0026-4db3-a953-c99083e6a84f
- Microsoft, "What happens when your Microsoft 365 subscription expires": https://support.microsoft.com/help/2eb89f06-bd1c-4f57-9269-f1cbab894341
- Microsoft, aviso de OneDrive inativo: https://support.office.com/en-us/article/5ee83d1a-28da-4d05-a1ca-46a522919e45
- Microsoft Brasil, comparação dos planos Microsoft 365: https://www.microsoft.com/pt-br/microsoft-365/compare-all-microsoft-365-products
- Backblaze, "Drive Stats for 2025": https://www.backblaze.com/blog/backblaze-drive-stats-for-2025/
- BankInfoSecurity, alerta da QNAP sobre Qlocker e eCh0raix (janeiro de 2022): https://www.bankinfosecurity.com/qnap-tells-users-to-take-immediate-action-to-stop-ransomware-a-18277
- WaterISAC, alerta da CISA sobre o malware QSnatch em NAS da QNAP (2020): https://www.waterisac.org/cisa-alert-potential-legacy-risk-malware-targeting-qnap-nas-devices
- KaBuM, Synology DS225+ de 2 baias: https://www.kabum.com.br/produto/1000939/synology-nas-ds225-2-baias
Fontes da imagem: https://www.magnific.com/
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