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Linux no lugar do Windows 10: como o sistema funciona por dentro e quando vale a migração

Wendell Nunes Publicado por: Wendell Nunes

08 de outubro de 2026

Linux no lugar do Windows 10: como o sistema funciona por dentro e quando vale a migração

Com o fim do suporte gratuito do Windows 10, muita gente que tem um computador funcionando bem, mas fora dos requisitos do Windows 11, passou a considerar o Linux como alternativa. A ideia costuma vir acompanhada de dúvidas legítimas: o que exatamente é o Linux, por que existem tantas versões, ele roda os programas que eu uso e quanto tempo de atualizações ele garante? Para responder com precisão, vale começar pela arquitetura e só depois chegar à decisão de migrar.

O que é o Linux: um núcleo, não um sistema completo

Em termos estritos, Linux é o nome do kernel, o núcleo do sistema operacional. Ele é do tipo monolítico e modular: todo o núcleo roda no espaço privilegiado da máquina, e seus componentes, como drivers, podem ser carregados e descarregados em tempo de execução. Cabe a ele escalonar processos entre os núcleos do processador (o escalonador EEVDF é o padrão desde a versão 6.6), gerenciar a memória virtual por paginação, oferecer uma camada comum para sistemas de arquivos como ext4, Btrfs e XFS e controlar o hardware por meio de subsistemas para armazenamento, vídeo, som e rede. Os programas conversam com o núcleo por cerca de 380 chamadas de sistema, e o próprio hardware aparece na forma de arquivos, em pastas como /dev e /sys.

O ponto central, porém, é o que o kernel não inclui. Ele não traz gerenciador de pacotes, interface gráfica nem navegador. Isso vem da distribuição, o conjunto que reúne o kernel com bibliotecas, programas de sistema, o servidor gráfico (X11 ou Wayland) e a área de trabalho. Dessa forma, "instalar Linux" na prática significa escolher uma distribuição, como Ubuntu ou Linux Mint, e cada uma delas toma decisões próprias sobre visual, atualizações e programas incluídos.

Por que o hardware antigo costuma funcionar

O Windows 11 impõe exigências de projeto: TPM 2.0, inicialização segura e uma lista de processadores. O Linux não tem uma barreira equivalente, e a compatibilidade de hardware depende dos drivers presentes no kernel. A consequência é que equipamentos de gerações anteriores, cujos drivers já são maduros, tendem a funcionar bem, enquanto hardware muito recente pode exigir um kernel mais novo. O guia do Linux Mint reconhece esse caso e oferece uma imagem de instalação alternativa, chamada Edge, para equipamentos que o kernel padrão ainda não reconhece direito.

A principal restrição está na arquitetura do processador: a partir da versão 20, o Linux Mint oferece apenas 64 bits, e o guia observa que computadores fabricados depois de 2007 provavelmente já têm processador de 64 bits. Para máquinas com poucos recursos, o próprio Mint indica os ambientes de área de trabalho MATE e Xfce, que consomem menos recursos. Quanto ao espaço, a documentação do Ubuntu pede ao menos 25 GB de armazenamento.

Por quanto tempo o Linux recebe atualizações

Este é o ponto em que a comparação com o Windows 10 fica interessante. A Canonical, empresa por trás do Ubuntu, oferece nas versões LTS cinco anos de correções de segurança. No caso do Ubuntu 24.04 LTS, a cobertura padrão vai até maio de 2029. Com o Ubuntu Pro, a extensão chega a 2034, e um complemento adicional estende até 2039.

Para efeito de comparação, a cobertura estendida do Windows 10 para usuários domésticos, segundo reportagens que citam a Microsoft, vai até 12 de outubro de 2027. Isso quer dizer que a janela padrão do Ubuntu 24.04 termina cerca de 19 meses depois. A comparação tem ressalvas, já que a cobertura padrão do Ubuntu abrange apenas os pacotes do repositório principal, mas ela mostra que a migração não significa ficar com menos tempo de proteção.

O ritmo do kernel também é bem definido. A cada 8 a 12 semanas surge uma nova versão estável, e algumas são designadas como de longo prazo e recebem correções por dois anos ou mais.

Segurança: o modelo de permissões

A segurança do Linux se apoia em um modelo de permissões em que o usuário comum não tem controle total do sistema, e ações administrativas exigem elevação explícita. O kernel ainda oferece mecanismos adicionais, como SELinux, AppArmor e listas de controle de acesso. Nada disso torna o sistema imune a ataques, e golpes que dependem de enganar o usuário continuam funcionando em qualquer sistema, mas a estrutura de permissões reduz o alcance de um programa malicioso executado por um usuário comum.

Programas e jogos: onde a migração pode doer

A maior fonte de atrito é a compatibilidade de programas. Pacotes que não têm versão para Linux, como alguns programas de edição profissional e sistemas desenvolvidos apenas para Windows, exigem uma alternativa ou o uso de uma camada de compatibilidade. Aplicativos acessados pelo navegador, em geral, funcionam da mesma forma, porque o navegador é o mesmo em qualquer sistema.

Nos jogos, a camada Proton, da Valve, mudou o cenário. Segundo um levantamento que cita o ProtonDB, cerca de 80% dos jogos da Steam rodam em Linux, e cerca de 90% funcionam de alguma forma. A exceção são os títulos com proteção contra trapaça no nível do kernel, como Valorant e Fortnite, que seguem sem funcionar. O mesmo levantamento registra que, em março de 2026, o Linux chegou a 5,33% na pesquisa de hardware da Steam, mas ressalva que esse número pode ter sido distorcido por um problema de coleta de dados, e o StatCounter, que usa outro método, coloca o Linux em cerca de 4,7% no mundo.

Existem ainda os periféricos. Antes de migrar, vale conferir se o fabricante oferece driver para Linux para impressoras, leitores e escâneres que você usa.

Como testar sem risco

A forma mais segura de avaliar a migração é iniciar o Linux por um pen drive, sem instalar nada. A documentação do Ubuntu recomenda justamente essa etapa, para verificar se o hardware funciona, e sugere um pen drive de pelo menos 8 GB. Nesse modo, você confere vídeo, som, rede, Wi-Fi, impressora e o desempenho geral antes de decidir. Para quem decide instalar, o passo indispensável é o backup completo dos arquivos antes de qualquer alteração no disco.

Para quem faz sentido, e para quem não faz

A migração tende a funcionar bem para uso de escritório, navegação, videochamadas, estudo e computadores antigos que seguem atendendo às tarefas do dia a dia. Também faz sentido para empresas que usam sistemas acessados pelo navegador, e o custo de licença do sistema operacional deixa de existir, já que o kernel é distribuído sob a licença GPL versão 2.

Por outro lado, não é a melhor escolha para quem depende de programas exclusivos para Windows, de jogos com proteção em nível de kernel ou de periféricos sem driver para Linux. Nesses casos, outras alternativas valem a comparação: aderir ao programa de atualizações estendidas do Windows 10, trocar componentes para atingir os requisitos do Windows 11 ou substituir o computador. Como mostramos no artigo sobre o fim do suporte do Windows 10, o primeiro passo é verificar se o equipamento é compatível com o Windows 11.

Vale a pena?

O Linux é uma alternativa real e madura para quem tem um computador capaz, mas barrado pelos requisitos do Windows 11, desde que os programas e periféricos do dia a dia funcionem nele. A arquitetura modular facilita a compatibilidade com hardware de gerações anteriores, as versões LTS garantem anos de correções de segurança, e o teste por pen drive permite decidir com base em evidência, sem risco para os arquivos. O caminho recomendado é testar, conferir a lista de programas e periféricos e só então migrar.


Fontes consultadas

  • Wikipedia, artigo sobre o kernel Linux (arquitetura monolítica e modular, escalonador, sistemas de arquivos, chamadas de sistema, ciclo de versões e licença GPL)
  • Canonical, política oficial de ciclo de vida do Ubuntu (cinco anos de correções para versões LTS, Ubuntu Pro e datas do 24.04)
  • Guia de instalação do Linux Mint (ambientes leves, versões de 64 bits e imagem Edge para hardware recente)
  • Documentação do Ubuntu Desktop (espaço mínimo e teste por pen drive)
  • KKM Mako, artigo sobre a participação do Linux na pesquisa de hardware da Steam (Proton, ProtonDB e ressalvas do levantamento)
  • BleepingComputer, reportagem sobre a extensão das atualizações de segurança do Windows 10 até 12 de outubro de 2027

Fontes da imagem: https://www.magnific.com/

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